Não é mal se sentir mal, quando tudo está estranho. Mal é quando ignoramos a estranheza do mundo ou quando a gente não se permite tocar nessa estranheza — sendo justamente a partir daí, uma chance maior de nos adoecermos.

Esta reflexão é fruto de uma das falas do Dr. Fabiano Moulin, médico especialista em neurologia cognitiva e do comportamento, ao explicar que nos tempos de hoje, morreu uma maneira de viver no mundo. Segundo o médico, o cérebro tem a missão de gerenciar a complexidade de nosso organismo para o enfrentamento do estresse e da imprevisibilidade, transformando tudo o que é regular em hábito. O motivo? Dessa forma não temos que aprender novamente a mesma coisa diariamente. Como você pode imaginar, a situação de pandemia é um estresse mantido, contínuo, global e com aquela máxima: até quando? Ou seja, se observarmos bem, estamos vivendo diante de uma incerteza persistente que tira a gente do nosso eixo todo santo dia.

Se cabe aqui fazer um breve paralelo para efeito de comparação, é possível constatar: podemos até curtir uma montanha russa por dois minutos, ir de novo e achar divertido. Mas será que encararíamos tal brinquedo e adrenalina por duas horas seguidas?

Os transtornos mentais sob distanciamento social

De acordo com Moulin, com a pandemia, tivemos nossa rotina de antigos hábitos drasticamente modificados, trazendo à tona toda nossa capacidade de micro decisão para a consciência. É por isso que o neurologista afirma: a gente precisa urgentemente recriar hábitos para que essas sobrecarga diminua. 

Só para se ter uma ideia, estudos feitos e divulgados pela Organização Mundial da Saúde depois do início da pandemia, indicam um aumento de sintomas de transtornos mentais em diversos países. Por exemplo: na Etiópia, cresceu três vezes a prevalência de sintomas de depressão em relação ao período anterior à pandemia.  Já na China, profissionais de saúde relataram altas taxas de ansiedade, depressão e insônia, enquanto no Canadá, 47% deles buscam apoio psicológico.

Agora vamos ao Brasil. Mais de 50% dos adultos que vivem em São Paulo, estado com o maior número de casos e mortes pela covid-19 no país, dizem sentir ansiedade ou nervosismo com frequência desde o início da crise. O resultado vem de um estudo feito com mais de 11 mil pessoas por pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e Fiocruz.

Não obstante, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, afirmou em maio que o impacto do novo coronavírus sobre a saúde mental é “extremamente preocupante” e que governos deveriam aumentar investimentos em serviços da área, sob o risco de ver aumento de problemas desse tipo no futuro. “O isolamento social, o medo de contágio e a perda de membros da família são agravados pelo sofrimento causado pela perda de renda e, muitas vezes, de emprego” afirma o diretor-geral, que também é acadêmico em biologia, pesquisador de malária reconhecido internacionalmente e doutor em saúde comunitária.

Em se tratando das formas de tratamento para os transtornos mentais e seus agravantes, de acordo com a professora do Instituto de Psicologia da USP, Leila Salomão, as pessoas devem considerar procurar apoio profissional quando sentimentos como tristeza, ansiedade ou raiva passem a comprometer a vida. “Muita gente diz que precisa se resolver sozinha. Por quê? Se puder, ótimo. Mas não há demérito em pedir ajuda. Por que as pessoas acham que diabetes é uma doença e depressão e ansiedade não são?” questiona a especialista e coordenadora de um grupo de assistência psicológica da universidade na pandemia, o Apoiar.

Ou seja, a depressão e os transtornos de ansiedade podem atingir pessoas de qualquer idade, causando sofrimento e dificultando o desempenho pessoal e profissional.  Portanto, em primeiro momento, é essencial se informar. Pois só assim, para estarmos atentos aos sinais que o nosso corpo oferece, além de dicas práticas para se ter mais saúde e qualidade de vida. 

Em tempo, a preocupação de hoje é que os efeitos do distanciamento social, somados aos possíveis impactos da doença, comprometam ainda mais a saúde mental de quem teve a vida acometida diretamente pela pandemia. O estresse por si só, não é o real problema, mas sim a falta de recuperação da saúde mental e a consequência dos demais desequilíbrios.

Por isso, torna-se cada vez tão fundamental manter uma rede de apoio, sempre que possível. E lembre-se: não é frescura, nem sinal de fraqueza buscar por ajuda.

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